segunda-feira, 24 de agosto de 2009




WENCESLAU DE MORAES

Os diabos e os velhos

A Nuno Queriol

Fala a lenda japonesa.
Era uma vez um velho, que tinha um enorme lobinho sobre a cara, na face por sinal. Certo dia, achava-se ele na montanha, a cortar lenha – era esta a sua humilde profissão, – quando o surpreendeu uma terrível tempestade, chuva a potes, ventania desabalada, o raio faiscando nas alturas; tão terrível, que se viu obrigado a ficar por aqueles sítios e a buscar um abrigo para a noite. Abrigo, na floresta, era difícil problema; um grande tronco de árvore, escavado pelos séculos, ofereceu-lhe a única guarida.
No seu posto, agachado e sem poder dormir, foi o velho passando tristes horas. Alta noite, principiou a dar razão dum estranho vozear, longe a princípio, mas pouco a pouco avizinhando-se-lhe – «Olá, resmungou, tanta gente por aqui, e eu que contava achar-me só?...» – E pôs-se a espreitar, curiosamente, sem sombra de receio.
O que o velho então viu, muito a custo, à luz fugidia dos relâmpagos, mal pode imaginar-se. Uma numerosa sociedade aproximava-se; mas nunca ao velho aparecera tão estranha sociedade como aquela. Era um bando imenso de patuscos, de diabos incontestavelmente, medonhos nos aspectos: uns, encarnados, vestidos de kimonos verdes; outros, negros, vestidos de kimonos encarnados; a um faltava um olho; a outros o nariz; alguns não tinham boca. Puseram-se a acender uma fogueira enorme, com palha, com folhas, com cavacos que encontraram; e as chamas sinistramente os patentearam. Acocorados em torno da fogueira, em duas filas, bebendo saké em amigável reinação, pareciam mesmo gente, os tais demónios. A vasilha ia passando à roda, de garra em garra, entre os convivas; e tantas voltas deu, e renovada tantas vezes foi, que já não tinham conto as bebedeiras. Um dos mais jovens assistentes ergueu-se como pôde, e começou uma cantiga, dançando ao mesmo tempo; os outros imitaram-no. Era então extremamente emocionante a vista da paisagem: a fogueira, ateada pelas rajadas sucessivas, alastrava-se e subia, furiosa, até às nuvens, em turbilhões de fumo e labaredas, e ia alumiando diabolicamente a cena inteira – ramarias de bambus e de pinheiros, profundezas de bosques, penedos gotejantes, torrentes espumosas, e ainda a turba imensa dos diabos esbracejando em mímicas atrozes – Uns rodopiaram em vertiginosas piruetas; outros iam gravemente alçando a perna e ensaiando minuetes; outros, imóveis, ou antes querendo assim quedar-se, ondulavam em bordos grotescos de borrachos; e de colina em colina os ecos repetiam os torvos descantes em falsete, de mistura com as lamentações das árvores açoitadas pelo vento, e a salva de artilharia dos trovões. Berrava uma voz esganiçada: «Que grande reinação! mas bem quisera ver mais alguma novidade!...» –
Metido no seu esconderijo, o rachador de lenha passou por todos os tormentos que o espanto, o susto e o desamparo juntos produzem no ânimo dum velho. Por fim, passadas horas, ia já folgando na festa – ou não fosse ele japonês! – e tal poder teve sobre ele a bambochata, que lhe venceu escrúpulos e temores, e o levou a esta resolução formal. – «Matem-me embora estes diabos, se quiserem, mas pretendo também ir pandigar!» – Surdindo então da toca, barrete enfiado até às orelhas, machadinha suspensa da cintura, ei-lo a reunir-se à malta, a dar as boas-noites e a ensaiar passos de dança. Foi agora a vez de se espantarem os demónios; mas tão cómico era o velho, no seu pobre corpinho corcovado, avançando em meneios, e recuando após, e virando-se para a direita em cortesias, e voltando-se para a esquerda em reverências, e traçando no ar, com o pé descalço, estupendas parábolas coreográficas, que desataram todos em risota, gritando: – «Viva o velho! muito bem! que bem dança o velho!» – E prosseguiram depois, neste propósito: – «Queremos que tomes sempre parte em nossas festas, por seres mui reinadio; mas, como pode acontecer que não pretendas voltar mais, vais deixar-nos um penhor de que acederás a este convite.» –
Consultaram-se entre si, e decidiram da consulta, extrair-lhe o lobinho; muita gente do povo, é notório, considera este achaque como um valioso talismã para ser-se afortunado. Ei-los pois, olhos atentos, braços nus, dedos palpando, lancetas e tenazes em acção; e o velho estendido sobre o solo, um segura-lhe uma perna, um outro a outra, outro prende-lhe os braços, outro delicadamente ampara-lhe a cabeça; e saíram-se do caso com limpeza, não causando a menor dor ao paciente. Depois, foram guardar o lobinho num estojo.
Quando, sereno já o tempo, rompeu a madrugada, uma bela madrugada cor-de-rosa, e os pardais começaram a papiar nas ramarias, desapareceu então a malta dos demónios. O velho desceu à sua aldeia. Entrou em casa muito contente, ainda um tanto estonteado da bebida, sem o lobinho é claro, com a sua face muito lisa, sem o mínimo defeito. O caso maravilhou com razão a companheira, e a gente conhecida. Ia-se servindo o chá pela família e pelos curiosos que acorriam, sobre a esteira, junto do braseiro; e era uma chuva de exclamações e de perguntas, que obrigaram o velho a explicar, nos seus detalhes surpreendentes, as peripécias da estranha noite que passara na montanha.
Ora, havia entre os vizinhos presentes um outro velho, que tinha um enorme lobinho sobre a cara, na face esquerda por sinal. Muito calado, assim com ares de não prestar ouvidos à palestra, ia em mente, o finório, retendo todas as minúcias. Não partilhando das crendices da gentalha, pelo contrário, desejoso de ver-se livre do tortulho, ia já estudando a maneira de entregar-se nas mãos de tão sábios curandeiros. Ei-lo pois, por uma noite escura, caminho da montanha; seguidamente, ei-lo abrigado sob o mesmo tronco de arvore, à espreita dos diabos. Não faltaram. Começou a bambochata, – risota, dança, vinho. – Juntou-se então aos demónios, a medo, um outro figurão. – «Olá, cá está de novo o velho! voltou, e vem dançar!» – Dançou, efectivamente, e sem ser muito rogado; mas era um desastrado; e tão mal desempenhou o seu papel, tão falto de jeito e de pilhéria, que os demónios, tomando-o sempre pelo conviva primitivo, zangaram-se e disseram-lhe: – «Enganaste-nos, brejeiro! és um grande desjeitoso; devolvemos-te o penhor que nos deixaste e aconselhamos-te a que não pises mais este lugar.» – Um da chusma foi buscar o lobinho, e zás! pespegou com ele na face direita do sujeito. Saíra de casa com um, e voltou com dois, um lobinho em cada face. Pode imaginar-se o desapontamento do sujeito e a hilaridade dos vizinhos. Parece que, na aldeia, durante semanas e semanas, paralisou todo o trabalho; os velhos, as velhas, as raparigas, os garotos, não faziam senão rir, rir a bandeiras despregadas, – e o caso não era para menos! –

1899.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Até já!


terça-feira, 28 de julho de 2009




FERNANDO PESSOA

[The earliest literary food of my childhood...]

The earliest literary food of my childhood was in the numerous novels of mystery and of horrible adventure. Those books, which are called boy’s books and deal with exciting experiences I cared little for. With a healthy and natural life I was out of sympathy. My craving was not for the probable, but for the incredible, not even for the impossible by the degree, but for the impossible by nature.
My childhood was quiet (...), my education was good. But since I have consciousness of myself, I have perceived in myself an inborn tendency to mystification to artistic lying. Add to this a great love of the spiritual, of the mysterious, of the obscure, which, after all, was but a form and a variation of that other characteristic of mine, and my personality is, to intuition, complete.

1906?

[imagem: detalhe da capa da primeira aventura de Os Cinco, Five on a Treasure Island]

sexta-feira, 24 de julho de 2009




BERNARDIM RIBEIRO

Menina e moça

[Excerto]

Se em algum tempo se achar este livro de pessoas alegres, não o leiam. Que, por ventura, parecendo-lhe que seus casos serão mudáveis como os aqui contados, o seu prazer lhes será menos prazer. Isto, onde eu esti­vesse, me doeria, porque assaz abastava eu nas­cer para minhas mágoas, e não ainda para as doutrem. Os tristes o poderão ler. Mas aí não os houve mais depois que nas mulheres houve piedade. Nas mulheres, sim, porque sempre nos homens houve desamor. Mas para elas não o faço eu que, pois que o seu mal é tama­nho que se não pode confortar com outro ne­nhum, é para as mais entristecer. Sem-razão seria querer eu que o lessem. Antes lhes peço muito que fujam dele e de todas as coisas de tristeza. Que ainda com isto poucos serão os dias que hão-de poder ser ledas, por­que assim está ordenado pela desventura com que elas nascem. Para uma só pessoa podia ele ser, mas desta não soube eu mais parte de­pois que suas desditas e minhas o levaram para longes terras e estranhas, onde bem sei eu que, vivo ou morto, o possui a terra sem prazer nenhum.
Meu amigo verdadeiro, quem me vos buscou tão longe? Que vós comigo e eu convosco, sós, soíamos passar nossos nojos grandes, e tão pe­quenos para os de depois! A vós contava eu tudo. Como vós vos fostes, tudo se tornou tris­teza. Nem parece ainda senão que estava es­preitando já que vos fósseis. E porque tudo ainda mais me magoasse, tão-somente não me foi deixado em vossa partida o conforto de sa­ber para que parte da terra íeis, que descan­saram meus olhos em levar para lá a vista.

quinta-feira, 16 de julho de 2009




SÁ DE MIRANDA

[Cerra a serpente os ouvidos]

Cerra a serpente os ouvidos
à voz do encantador;
eu não, e agora com dor
quero perder meus sentidos;
os que mais sabem do mar
fogem d’ouvir as sereias.
Eu não me soube guardar;
fui vos ouvir nomear:
fiz minh’alma e vida alheas.