ALMEIDA GARRETT
(1799-1854)
Viagens na minha terra
[Excerto]
Viagens na minha terra
[Excerto]
Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes[1], de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como S. Petersburgo — entende-se. Mas com este clima, com esse ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.
Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.
Era uma ideia vaga; mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas. Abalam-me as instâncias de um amigo, decidem-me as tonteiras de um jornal, que por mexeriquice quis encabeçar em desígnio político determinado a minha visita[2].
Pois por isso mesmo vou: pronunciei-me.
São 17 deste mês de Julho, ano da graça de 1843, uma segunda-feira, dia sem nota e de boa estreia. Seis horas da manhã a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro do Paço. Chego muito a horas, envergonhei os mais madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu. Já vou quase no fim da praça quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça d’ancien régime: é o nosso chefe e comandante, o capitão da empresa, o Sr. C. da T. que chega em estado.
Também são chegados os outros companheiros; o sino dá o último rebate. Partimos.
[1] É visível a alusão ao popular e inimitável opúsculo de Xavier de Maistre, Voyage au tour de ma chambre, que decerto foi principiado a escrever em Turim, e que muitos supõem que fosse concluído em São Petersburgo.
[2] É puramente histórico isto; e também é verdade que em grande parte daqui se originou a perseguição brutal que sofreu o A. dali a poucos meses.
[1] É visível a alusão ao popular e inimitável opúsculo de Xavier de Maistre, Voyage au tour de ma chambre, que decerto foi principiado a escrever em Turim, e que muitos supõem que fosse concluído em São Petersburgo.
[2] É puramente histórico isto; e também é verdade que em grande parte daqui se originou a perseguição brutal que sofreu o A. dali a poucos meses.

Pelo prazer que sempre me proporciona a leitura do teu blogue, aqui fica o prémio que te concedo!
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