sexta-feira, 24 de julho de 2009




BERNARDIM RIBEIRO

Menina e moça

[Excerto]

Se em algum tempo se achar este livro de pessoas alegres, não o leiam. Que, por ventura, parecendo-lhe que seus casos serão mudáveis como os aqui contados, o seu prazer lhes será menos prazer. Isto, onde eu esti­vesse, me doeria, porque assaz abastava eu nas­cer para minhas mágoas, e não ainda para as doutrem. Os tristes o poderão ler. Mas aí não os houve mais depois que nas mulheres houve piedade. Nas mulheres, sim, porque sempre nos homens houve desamor. Mas para elas não o faço eu que, pois que o seu mal é tama­nho que se não pode confortar com outro ne­nhum, é para as mais entristecer. Sem-razão seria querer eu que o lessem. Antes lhes peço muito que fujam dele e de todas as coisas de tristeza. Que ainda com isto poucos serão os dias que hão-de poder ser ledas, por­que assim está ordenado pela desventura com que elas nascem. Para uma só pessoa podia ele ser, mas desta não soube eu mais parte de­pois que suas desditas e minhas o levaram para longes terras e estranhas, onde bem sei eu que, vivo ou morto, o possui a terra sem prazer nenhum.
Meu amigo verdadeiro, quem me vos buscou tão longe? Que vós comigo e eu convosco, sós, soíamos passar nossos nojos grandes, e tão pe­quenos para os de depois! A vós contava eu tudo. Como vós vos fostes, tudo se tornou tris­teza. Nem parece ainda senão que estava es­preitando já que vos fósseis. E porque tudo ainda mais me magoasse, tão-somente não me foi deixado em vossa partida o conforto de sa­ber para que parte da terra íeis, que descan­saram meus olhos em levar para lá a vista.

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